2025 - A Retrospectiva do Atraso

Rod Pereira
30 de dezembro de 2025

O Brasil encerra 2025 do jeito que mais gosta: atrasado, indignado e absolutamente convencido de que a culpa é sempre de alguém muito bem definido. Nunca nossa. Chegamos ao fim do ano em crise permanente, esse estado emocional que substituiu o planejamento e virou política pública.
O governo federal passou o ano governando pela intenção. Anunciou reconstruções, refundou conceitos, criou conselhos, grupos de trabalho e narrativas. Entregar resultado virou detalhe técnico. O essencial era explicar bem. Quando algo dava errado, a culpa era da comunicação. Quando dava certo, era da história.
Governar deixou de ser governar. Virou convencer. Sidônio Palmeira, ministro da Comunicação, passou 2025 tentando fazer mágica narrativa para provar que o governo faz, mesmo quando não fez, e que fez muito, mesmo quando ninguém percebeu. Sua missão não era informar, era transformar ausência de entrega em sensação de movimento. Um truque retórico digno de ilusionista experiente: enquanto o coelho não aparece, a plateia deve aplaudir o chapéu.
A gestão virou teaser bem feitos nas redes sociais. Vídeos bem editados, trilhas emocionais, cortes rápidos e legendas otimistas substituíram indicadores, metas e entregas reais. Governa-se para o feed. O país virou bastidor. Enquanto o post performa, a realidade aguarda. Em silêncio.
Nos estados, governadores descobriram que administrar orçamento não rende curtida. Então gravaram vídeos. Muitos vídeos. A realidade insistia em aparecer na forma de enchentes, crises na segurança pública, hospitais lotados e estradas esburacadas. Mas nada que um bom discurso empático e um drone não resolvessem por algumas horas.
A oposição cumpriu seu papel com fervor quase religioso. Torceu contra tudo, inclusive contra o que poderia dar certo. Cada dado positivo era fraude. Cada problema era prova do apocalipse. Propostas? Poucas. Ideias estruturais? Nenhuma. O objetivo não era melhorar o país, era piorar o governo. Se o Brasil afundasse no processo, dano colateral aceitável.
O Judiciário, sempre solene e sempre acima, decidiu que assistir de longe era pouco. Em 2025, governou. Decidiu sobre orçamento, política, redes sociais, comportamento e até pensamento. Tudo em nome da democracia, conceito tão elástico que hoje cabe qualquer coisa, menos discordância. Decisões monocráticas viraram rotina. Questionar passou a ser ataque institucional. Concordar virou prova de civilidade.
No meio disso tudo, o Brasil seguiu vivendo em modo provisório. Obras provisórias. Medidas provisórias. Soluções provisórias que duram décadas. Estamos sempre preparando o terreno para algo que nunca chega.
2025 foi o ano do barulho máximo e da entrega mínima. Um país inteiro ocupado em parecer ocupado. Reuniões, notas, vídeos, coletivas e indignações em escala industrial. Tudo funcionou, menos o essencial.
O Brasil não parou. Ele patinou. Girou em falso, queimando discurso como combustível e chamando fumaça de avanço. Enquanto o mundo segue produzindo, entregando e decidindo, seguimos explicando. Explicando muito. E governando pouco.
Encerramos o ano com a velha certeza nacional de que agora vai. Sempre vai. Nunca foi. Que 2026 seja melhor. Muito melhor. Não por milagre, slogan ou narrativa, mas por entrega. O país agradece.

Você também pode gostar de: