
A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro marca um novo capítulo da política nacional, comparável em impacto ao próprio surgimento do bolsonarismo, que atingiu seu auge com a eleição de 2018 e agora encontra um ponto de inflexão na sentença proferida em 11 de setembro de 2025.
De deputado folclórico do baixo clero, conhecido por declarações polêmicas de caráter racista, misógino e homofóbico, Bolsonaro transformou-se em líder de massas, arregimentando milhões de seguidores. Seu crescimento político não teria sido possível sem o apoio decisivo de setores religiosos, que, em troca de benefícios estatais, mobilizaram seus fiéis em torno de sua candidatura.
O fenômeno rompeu com a tradicional polarização esquerda versus direita, ao inserir no tabuleiro político brasileiro uma extrema direita organizada. O bolsonarismo é acusado de protagonizar o discurso de ódio, tratando adversários como inimigos e elevando o conflito político a patamares inéditos. Fantasmas e crenças consideradas fora da realidade foram alimentados, sem razoabilidade, em um ambiente de permanente radicalização. Os reflexos foram profundos e, muitas vezes, deletérios para a convivência política e social do país.
Com a condenação, a disputa passa a ser pela herança do bolsonarismo. Aliados tentam se projetar como sucessores de seu capital político, mas ainda é incerto se algum nome conseguirá reproduzir a mesma capacidade de mobilização popular. Ao mesmo tempo, também existe a possibilidade de o bolsonarismo se dissipar, reduzindo a temperatura das disputas políticas.
Exemplos de lealdade extrema a Bolsonaro marcaram a trajetória de muitos políticos durante seu governo. O prefeito de Porto Seguro, Jânio Natal, chegou a prometer em discurso na cidade histórica, em 22 de abril de 2022, que daria a vida pela vitória de Bolsonaro naquelas eleições — um nível de bajulação política espantosa. Mas não adiantou: Bolsonaro perdeu.
O futuro imediato da política brasileira, portanto, permanece imprevisível: está em aberto se o legado do ex-presidente será absorvido por novas lideranças ou se se dissolverá com o tempo, abrindo espaço para outro ciclo político.