
A pesquisa liderada pela professora Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, reacende uma das mais desafiadoras esperanças da medicina moderna: a possibilidade de regeneração da medula espinhal e, consequentemente, a reversão da paraplegia. O estudo com a substância denominada polilaminina avança para a fase 1 de testes clínicos após autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), marco que posiciona a ciência brasileira em evidência no cenário internacional.
A paraplegia decorrente de lesões medulares completas, especialmente na região torácica, sempre foi considerada irreversível pela medicina tradicional. Danos entre as vértebras T2 e T10 comprometem funções motoras e sensoriais abaixo da lesão, impactando drasticamente a qualidade de vida dos pacientes. A proposta da polilaminina rompe com esse paradigma ao demonstrar, em estudos pré-clínicos, a capacidade de regenerar neurônios e restaurar conexões nervosas interrompidas.
A aprovação do estudo foi priorizada pelo comitê de inovação da Anvisa. De acordo com o diretor-presidente da agência, Leandro Safatle, a decisão integra uma estratégia para acelerar pesquisas de alto interesse público. Segundo ele, a iniciativa contribuiu para a redução de 60% no tempo de aprovação de pesquisas clínicas nos últimos dois meses, fortalecendo a autonomia científica e sanitária nacional.
O caráter 100% brasileiro da pesquisa também carrega peso simbólico. Em um cenário historicamente dependente de tecnologias importadas na área biomédica, a polilaminina surge como exemplo de investimento consistente em ciência nacional com potencial impacto social amplo. Caso os resultados se confirmem nas próximas fases clínicas, o Brasil poderá se tornar referência mundial no tratamento de lesões medulares.
A repercussão entre pessoas com deficiência física é marcada por esperança cautelosa. O morador de Porto Seguro, Reinan José dos Santos, conhecido como “Gordo Eletricista”, que ficou paraplégico após um acidente em 2019, comentou o tema no episódio 82 do PodPorto Podcast, destacando a importância da pesquisa para milhares de brasileiros que convivem com limitações motoras permanentes. Para ele e muitos outros, a possibilidade de recuperação representa não apenas avanço médico, mas transformação de projetos de vida.

Apesar do entusiasmo, especialistas reforçam que a fase 1 tem como principal objetivo avaliar segurança e dosagem, não sendo ainda etapa de comprovação definitiva de eficácia. O caminho até a eventual disponibilização ampla do tratamento inclui fases adicionais, acompanhamento prolongado e análise rigorosa de resultados.
Ainda assim, a polilaminina simboliza algo maior: a convergência entre ciência, política pública e expectativa social. Em um país onde milhares de pessoas vivem com lesões medulares, a pesquisa conduzida por Tatiana Sampaio não é apenas um experimento clínico — é uma promessa em construção.