Brasil: a agenda woke e a solidão de quem diz representar o povo

Há algo curioso acontecendo no Brasil. Não é exatamente novo, mas se tornou mais visível. Uma agenda que nasceu com o discurso de inclusão começa, pouco a pouco, a produzir exclusão. E não é aquela exclusão teórica, que se resolve em seminários ou nas bolhas das redes sociais. É exclusão real, política e, sobretudo, popular. A chamada agenda woke, importada e adaptada sem qualquer mediação com a realidade brasileira, passou a ocupar o centro do debate público. O problema é que ela deixou de ser ferramenta e passou a funcionar como senha de pertencimento. Quem domina o vocabulário entra. Quem hesita, questiona ou simplesmente não acompanha o código… fica de fora. E, nesse novo ambiente, argumento já não basta. É preciso performar. Esse descolamento fica evidente no caso da deputada Erika Hilton, cuja repercussão recente, acompanhada por dados da RealTime Big Data, revelou um número que não permite relativização: 84% dos brasileiros rejeitam sua indicação à presidência da Comissão da Mulher. Não se trata de ruído. Não se trata de bolha. É uma maioria esmagadora. E mais: a ampla maioria da população já tinha conhecimento do caso. O que está sendo rejeitado não é apenas uma figura pública, mas uma forma de fazer política. Quando o discurso deixa de dialogar e passa a soar mais como doutrina do que como debate, ele rompe. Quando deixa de incluir e passa a enquadrar, ele se desconecta das pessoas. Esse mesmo movimento de uma pauta que deveria ampliar o debate, mas acaba por restringi-lo aparece de forma ainda mais explícita no episódio envolvendo a estudante Beatriz Bueno @beatrizbuenoa. Sua pesquisa partia de um ponto que, em tese, deveria ser absolutamente legítimo dentro de qualquer ambiente acadêmico sério: a defesa do direito de pessoas pardas se afirmarem como mestiças, reconhecendo a complexidade da própria formação identitária brasileira. Mas, no momento em que esse princípio foi testado dentro de uma pauta woke, o que se viu foi o oposto do discurso que as universidades federais historicamente sustentam. A divergência não foi debatida. Foi silenciada para servir de exemplo. E, quando a universidade abandona o confronto de ideias para proteger uma narrativa única, ela deixa de produzir conhecimento e passa a impor consenso. E esse não é um caso isolado. É mais um dentro de um padrão que está sendo construído. Um padrão que revela algo mais profundo: a dificuldade crescente de lidar com qualquer pensamento que escape do roteiro previamente estabelecido. O caso do influenciador Sávio de Maio @eusaviodimaio revela essa engrenagem em funcionamento. Ao adotar um discurso mais pragmático, menos performático e mais conectado com a realidade cotidiana, ele se torna alvo constante de ataques e cancelamentos. Não por defender o oposto, mas por não seguir o tom. Isso escancara uma contradição central: dentro de um campo que se propõe plural, há cada vez menos espaço para nuance. A divergência não é debatida. É perseguida, enquadrada e, muitas vezes, eliminada. Quem não concorda integralmente simplesmente recebe o rótulo de fascista, misógino, LGBTfóbico ou qualquer outro disponível no momento. O objetivo não é compreender. É desqualificar. O importante é calar o outro à força e jamais debater. E, ao não admitir contestação, esse comportamento passa a se aproximar da mesma lógica autoritária que diz combater. A partir desses exemplos, a questão deixa de ser provocação e passa a ser diagnóstico. Até que ponto uma agenda criada para defender os marginalizados passou a marginalizar quem não se adequa à sua linguagem, aos seus rituais e às suas formas de expressão? Porque há uma nova camada de exclusão em curso — e ela não é econômica, mas simbólica. Quem não domina o código está fora. Quem não performa corretamente está fora. Quem não concorda integralmente, simplesmente não pertence. Enquanto isso, o Brasil real segue em outra frequência. O trabalhador que enfrenta transporte precário, custo de vida elevado e serviços públicos fragilizados não está discutindo códigos identitários. Ele está tentando resolver problemas concretos. Não se trata de incapacidade de compreensão, mas de prioridade. E é justamente essa diferença de prioridades que evidencia o abismo entre o debate institucional e a vida cotidiana. Nesse cenário, emerge uma elite progressista que opera como uma espécie de aristocracia moral. Uma elite colonizada, deslumbrada com debates importados e incapaz de traduzir essas discussões para a realidade brasileira. Fala em nome do povo, mas já não consegue dialogar com ele. Pior: perdeu a capacidade de escuta e ecoa, sem perceber, o velho desprezo travestido de virtude. Afinal, quando a política deixa de ouvir, ela inevitavelmente deixa de representar. Não por acaso, esse modelo começa a dar sinais claros de desgaste em outros países. Não porque suas pautas sejam irrelevantes, mas porque sua forma se tornou rígida, punitiva e autocentrada. O problema nunca foi discutir inclusão. O problema é transformar inclusão em instrumento de exclusão. O brasileiro entende tudo isso. Mas reage pouco. Observa, comenta, compartilha e segue em frente. Porque, no fim do dia, se não trabalhar, não põe o pão na mesa. A questão, portanto, não é se essa agenda vai continuar existindo. Ela vai. A questão é se conseguirá se reconectar com a realidade ou se seguirá falando apenas para si mesma. Porque, quando a política vira monólogo, ela pode até parecer forte. Mas já deixou de ser relevante.

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