Cadê o dinheiro?

Um levantamento do site Bahia Notícias revelou que Porto Seguro lidera o ranking dos municípios baianos que mais receberam recursos por meio das chamadas Emendas Pix. Ao todo, a cidade foi contemplada com R$ 4,46 milhões, valor significativamente superior ao destinado a outros grandes centros do estado. Na sequência aparecem Ilhéus, com R$ 2,94 milhões, Juazeiro (R$ 2,57 milhões), Itabuna (R$ 1,58 milhão), Salvador (R$ 1,39 milhão), Lauro de Freitas (R$ 1,29 milhão) e Feira de Santana, que recebeu R$ 500 mil.

As Emendas Pix são um modelo recente de repasse de recursos federais, caracterizado pela transferência direta de verbas indicadas por parlamentares a estados e municípios, sem a necessidade de convênios tradicionais. A lógica é a da agilidade: o dinheiro cai rapidamente nos cofres públicos, como em uma transferência via PIX, com o argumento de acelerar investimentos, especialmente em áreas sensíveis como saúde, educação e infraestrutura.

No entanto, essa rapidez tem um custo institucional elevado. A principal controvérsia envolvendo as Emendas Pix é a falta de transparência sobre a destinação e a aplicação dos recursos. Diferentemente de outros mecanismos orçamentários, esse modelo inicialmente dispensava detalhamento prévio de projetos, metas ou cronogramas, o que dificultava o acompanhamento pela sociedade e pelos órgãos de controle.

Diante das críticas, o Supremo Tribunal Federal (STF) interveio, determinando a exigência de planos de trabalho detalhados, maior fiscalização e a criação de portais públicos de consulta, além da apuração de possíveis irregularidades. A decisão reconhece que, embora legais, as Emendas Pix não podem operar à margem dos princípios da publicidade, da eficiência e da responsabilidade na gestão do dinheiro público.

É nesse contexto que Porto Seguro se torna um caso emblemático. Sendo o município que mais recebeu recursos desse tipo na Bahia, surge a pergunta central que ainda carece de resposta clara: onde foi aplicado esse dinheiro? Quais áreas foram priorizadas? Houve investimentos em saúde, educação, obras estruturantes ou programas sociais? Existem projetos formalizados, contratos assinados e resultados mensuráveis?

Até o momento, a dificuldade em acessar informações detalhadas sobre a execução desses R$ 4,46 milhões reforça a percepção de opacidade que envolve as Emendas Pix em todo o país. Em uma cidade com desafios históricos em serviços públicos, infraestrutura urbana e atendimento à população, a ausência de clareza sobre o destino de recursos tão expressivos não é apenas um problema administrativo — é uma questão de interesse público.

Mais do que saber quanto Porto Seguro recebeu, a sociedade precisa saber como, onde e em benefício de quem esse dinheiro está sendo gasto. Transparência não é um detalhe burocrático: é condição básica para que o recurso público cumpra sua função social.

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