Como combater o fascismo sem abrir mão do fascismo

A UFRJ acaba de oferecer importante contribuição às Ciências Humanas: descobriu uma maneira de combater o autoritarismo usando algumas práticas autoritárias. O método ainda está em fase experimental, mas os primeiros resultados são animadores. Um estudante de História, acusado de apologia ao nazismo, foi retirado de uma sala e agredido por colegas. O exame de corpo de delito constatou lesões. A universidade abriu investigações, a polícia também. O aluno apanhou. A democracia, felizmente, passa bem e não precisou sequer ser internada.

Diego Araújo vestia uma camiseta da banda Death in June, conhecida por utilizar uma simbologia deliberadamente controversa. Até aí, prato cheio para discussão numa faculdade de História. Só havia um detalhe desagradável para a tese pronta: ele também usava um broche com uma suástica riscada, justamente um símbolo antinazista. Diego se declara marxista, nega qualquer simpatia pelo nazismo e já colaborou com publicação ligada à esquerda. Não prova santidade. Mas atrapalha bastante quando você já comprou a fogueira e só está procurando quem fornece a lenha.

A solução tradicional seria investigar. Ouvir a professora. Examinar os vídeos. Escutar testemunhas. Confrontar versões. É um processo terrivelmente burocrático, criado numa época em que as pessoas ainda tinham a exótica mania de descobrir o que aconteceu antes de condenar alguém. Hoje podemos simplificar. Primeiro identificamos o fascista. Depois aplicamos a sentença. Se sobrar tempo entre uma assembleia e outra, examinamos as provas. É uma espécie de Justiça 4.0: menos contraditório, mais produtividade e excelentes resultados para quem já sabe a resposta antes da pergunta.

O problema é que começaram a surgir fatos inconvenientes. A professora declarou que não havia percebido apologia ao nazismo em sua aula. Vigilantes também disseram não ter presenciado aquela manifestação. Diego nega a acusação de injúria racial e agressão feita por outro estudante, acusações que continuam sob investigação. Ou seja, surgiu aquilo que costuma destruir excelentes certezas ideológicas: dúvida. E a dúvida, todos sabemos, é perigosíssima. Se pegar, daqui a pouco o estudante começa a pensar por conta própria e ninguém sabe onde isso vai parar.

Foi então que apareceram conversas atribuídas ao ambiente estudantil envolvido no episódio. Segundo relatos publicados, houve comemoração da agressão e até a sugestão de fazer Diego “morder o meio-fio” antes de pisar em sua cabeça. A referência é ao filme A Outra História Americana, em que um neonazista protagoniza uma das cenas mais brutais do cinema exatamente dessa maneira. É uma contribuição extraordinária à luta antifascista: para combater um suposto nazista, alguém sugere reproduzir o método de um nazista. Mas com consciência social. Evidentemente, isso muda tudo.

Imagino até a disciplina no próximo semestre: Práticas Antifascistas I. Unidade 1: Identificando fascistas pela camiseta. Unidade 2: O contraditório como instrumento da burguesia. Unidade 3: Técnicas de imobilização do pensamento divergente. Aula prática: A Outra História Americana, mas prestando atenção apenas na coreografia. No final, avaliação em grupo. Quem discordar do professor já entrega o trabalho presencialmente acompanhado por três colegas. Não sei se haverá créditos complementares, mas hematomas talvez contem como atividade de extensão.

E então chegamos ao ponto mais interessante da história. Em mensagem divulgada posteriormente aparece uma preocupação curiosa: evitar a circulação de determinado vídeo e “controlar a narrativa”. A frase é quase uma tese de doutorado em três palavras. Não descobrir os fatos. Não esclarecer os fatos. Não organizar os fatos. Controlar a narrativa. Porque fato, quando não colabora, é uma coisa muito inconveniente. Narrativa é melhor. O fato tem vídeo, testemunha, horário e hematoma. A narrativa possui a enorme vantagem de poder escolher quem será o vilão antes mesmo de terminar o primeiro capítulo.

Pouco depois surgiu um manifesto assinado por centenas de profissionais ligados à UFRJ e a outras instituições. Nele, Diego não aparece simplesmente como um estudante acusado de determinadas condutas ainda investigadas. Surge como “neonazista” e “agente provocador”. O documento também rejeita a caracterização da reação como linchamento. Eis uma inovação semântica importante. Se uma pessoa é cercada, perseguida e agredida por várias outras, isso pode parecer linchamento para quem não possui pós-graduação. Na academia, contudo, talvez o nome técnico seja autodefesa coletiva com abordagem interdisciplinar.

“Agente provocador”, aliás, é uma expressão maravilhosa porque resolve retrospectivamente quase tudo. Apanhou? Sim, mas provocou. Foi cercado? Foi, mas veja a camiseta. Levou socos? Levou, porém precisamos compreender o contexto histórico do soco. A culpa começa silenciosamente a migrar do punho para o rosto. É o tradicional “também estava procurando”, agora completamente higienizado, com referências bibliográficas e nota de rodapé. O agredido deixa de ser alguém cuja agressão precisa ser investigada e passa a ser quase o responsável administrativo pela existência dos próprios hematomas.

O manifesto ainda afirma rejeitar o “justiçamento”, o que talvez seja o momento mais Jô Soares de toda a história sem que Jô tenha participado dela. O estudante é chamado de neonazista antes da conclusão das investigações, classificado como provocador, acusado de atos criminosos e, logo depois, os signatários informam solenemente que são contra julgamentos precipitados. É como construir a forca, colocar a corda no pescoço do sujeito e pendurar uma faixa ao lado: “Esta instituição repudia energicamente a pena de morte.” A coerência, sabemos, também pode ser uma construção social.

Estou me graduando em História e talvez seja justamente por isso que esse episódio me incomode tanto. História deveria ensinar o vício da dúvida. Desconfiar do documento, da testemunha, do poder, da memória, do vencedor, do derrotado e, sobretudo, daquela versão maravilhosa que confirma exatamente tudo aquilo em que já acreditávamos. Mas parte das Humanas parece enamorada de um método mais moderno: em vez de tese, antítese e síntese, temos rótulo, cancelamento e sentença. Discordou? Fascista. Pediu prova? Reacionário. Apresentou prova inconveniente? Está tentando controlar a narrativa errada.

O problema não é ser de esquerda, de direita ou de qualquer outra localização disponível no Waze ideológico brasileiro. O problema começa quando alguém acredita que sua causa lhe concede superioridade moral suficiente para decidir quem pode falar, quem deve ser retirado da sala e quem eventualmente merece apanhar. Todo autoritarismo possui uma justificativa nobre para si mesmo. Ordem, pátria, revolução, povo, justiça. Ninguém acorda de manhã, olha no espelho e diz: “Hoje serei fascista”. Normalmente diz que está salvando alguém do fascismo.

Talvez seja essa a grande contribuição acadêmica do episódio da UFRJ. Descobrimos que é perfeitamente possível condenar o justiçamento depois de justificar o justiçamento, combater o fascismo imitando uma cena protagonizada por um fascista e defender a pluralidade enquanto se tenta controlar a narrativa do que aconteceu. Para uma faculdade de História, é um material extraordinário. Poderia render seminários sobre totalitarismo, violência política, propaganda e manipulação da memória. Seria uma aula fascinante. Infelizmente, alguns preferiram começar pela Educação Física.

Da próxima vez que alguém entrar numa universidade com uma camiseta controversa, talvez possamos tentar algo ainda mais radical. Antes do soco, da sentença, do manifesto, do WhatsApp e da comissão encarregada de explicar por que aquilo que vimos não foi exatamente aquilo que vimos, alguém poderia fazer uma pergunta. Depois outra. E, em último caso, recorrer a uma prática antiga, quase subversiva e perigosamente incompatível com certezas absolutas: abrir um livro.