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Convenção coletiva define salários de comerciários e expõe desvalorização dos trabalhadores

Foram definidos na segunda-feira (2) os novos pisos salariais da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) dos comerciários de Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e Eunápolis para o ano de 2026. Os valores estabelecidos variam entre R$ 1.635,00 e R$ 1.884,00, conforme a função exercida e o tempo de serviço, com diferenciação entre trabalhadores com até 90 dias e aqueles com mais de 90 dias de contratação.

A pergunta é: quem consegue manter a família com estes salários?

Os números chamam atenção em uma região onde o setor terciário — especialmente o comércio e os serviços — é o principal motor da economia. Os comerciários desempenham papel essencial no funcionamento das cidades, sobretudo em Porto Seguro, onde o turismo impulsiona fortemente o varejo. Ainda assim, os salários definidos pela convenção revelam um cenário de desvalorização da força de trabalho, distante do custo de vida local e das exigências do setor.

É recorrente, por parte dos empregadores, a queixa sobre a falta de mão de obra qualificada, com experiência e cursos de especialização. No entanto, os baixos salários praticados dificultam que o trabalhador invista em formação profissional, criando um círculo vicioso entre baixa remuneração e escassez de qualificação.

imagem - Robert Adrian Hillman

Nos últimos anos, Porto Seguro tem vivenciado um boom do setor varejista, marcado pelas inaugurações de grandes atacadões e redes comerciais, o que amplia a demanda por trabalhadores. Apesar disso, as condições oferecidas não acompanham esse crescimento. Queixas sobre alimentação inadequada, jornadas de trabalho estafantes e pressão por produtividade fazem parte da rotina de muitos comerciários.

A comparação feita por trabalhadores da região é emblemática: em alguns casos, atuar como ambulante pode ser financeiramente mais vantajoso do que manter um vínculo formal no comércio. Essa percepção ajuda a explicar o avanço do trabalho informal, que surge como alternativa diante de salários considerados insuficientes e condições precárias.

O resultado é um mercado de trabalho marcado pela rotatividade, pela informalidade e pela insatisfação crescente, comprometendo não apenas a vida dos trabalhadores, mas também a qualidade dos serviços prestados à população. A Convenção Coletiva de Trabalho de 2026, ao chancelar pisos salariais, expõe um modelo econômico que cresce às custas da precarização do trabalho, mesmo em um setor que apresenta expansão e lucros significativos na região.

Diante desse cenário, a pergunta que precisa ser feita é: quem consegue sustentar uma família, pagar aluguel, alimentação, transporte e ainda ter dignidade com salários que mal ultrapassam o mínimo da sobrevivência? Até quando o desenvolvimento econômico local seguirá dissociado da valorização de quem efetivamente move o comércio todos os dias? A manutenção desses salários empurra trabalhadores para a informalidade e escancara uma realidade que aprofunda desigualdades e fragiliza o tecido social.

 

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