Somos capins de beira de estrada
Destes que se curvam com os vorazes ventos
Da tua perversa velocidade
Mas quando assim nos reclinas
Deitamo-nos junto às flores meninas
Que conosco convivem no prado
E nos fartamos destemidos
Plenos de felicidade
E com elas assim estirados
Entremeio às pedras do asfalto
Rimos da tua desvairada pressa
Bailamos ao som das cantigas
Dos pneus cegos que te voam
Fazemos firulas com o ronco
Do teu motor ágil vibrante
E descansamos enraizados
Ao pé das campinas
Não frágeis nem marginalizados
E sim robustos ainda que rotos
Porque de nossos macios brotos
Nascem tuas verdejantes colinas
Margeando enfim os essenciais caminhos
Apascentamos os passos do andarilho
Camuflamos grilos e centopeias
Acalentamos as lagartas preguiçosas
Trocamos o puro oxigênio das teias
Contemplamos as estrelas no ápice das trevas
Saboreamos o orvalho nos pelos
E os raios do dia que nos despertam
E ainda que tuas lâminas e o fogo
Consumam nossos frágeis talos
Somos capins de beira de estrada
Ressurgimos das cinzas cruas que nos alimentam
Revigorando as paisagens da tua jornada