Estamos vivendo a era do berro. Um tempo em que o argumento virou artigo de luxo e o pensamento, uma extravagância suspeita. Quem fala baixo parece fraco. Quem pondera é visto como cúmplice. O vencedor não é o mais lúcido, mas o mais histérico. A razão perdeu a eleição para o grito.
Há algo de profundamente obsceno nisso tudo. Nunca houve tanta informação circulando e nunca se pensou tão pouco. A idiotização contemporânea não nasce da ignorância inocente, mas do orgulho de não pensar. O sujeito não quer entender. Ele quer vencer. Nem sabe o quê. Mas quer vencer alguém.
Nelson Rodrigues já havia percebido essa tragédia em andamento quando escreveu, sem anestesia: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.” Não é metáfora. É estatística emocional. A mediocridade, quando se organiza, vira maioria barulhenta. E a maioria barulhenta sempre acredita que tem razão.
O idiota moderno não é silencioso. Ele é militante da própria ignorância. Opina sobre tudo com convicção de quem nunca duvidou de nada. A dúvida virou fraqueza. A nuance, traição. A complexidade, coisa de gente perigosa. Pensar passou a ser visto como arrogância intelectual, quando na verdade é só responsabilidade.
Nesse cenário grotesco, a frase de René Descartes parece quase ofensiva. “Penso, logo existo” virou peça de museu. Hoje, a lógica dominante é outra. Não penso, logo apareço. Não penso, logo grito. A existência se mede pelo alcance, pelo engajamento, pelo escândalo do dia.
O grito não quer diálogo. Quer linchamento simbólico. Ele não constrói nada, apenas destrói rapidamente. É eficiente, é raso, é satisfatório. Argumentar exige tempo. Escutar exige humildade. Pensar exige coragem. O grito exige só fúria e plateia.
E é aí que mora o perigo. Uma sociedade que abandona o argumento entrega o poder aos mais primitivos. Não aos mais fortes, mas aos mais ruidosos. A idiotização deixa de ser defeito e passa a ser método. Quem pensa atrapalha. Quem grita resolve.
Talvez resistir hoje seja um ato quase subversivo. Pensar com calma. Falar com cuidado. Sustentar um argumento inteiro em um mundo que só tolera frases de efeito. O silêncio reflexivo virou afronta. A inteligência virou ameaça.
Quando o grito vira regra, não é a razão que perde espaço. É a civilização que começa a gaguejar.