Lula, Bolsonaro e o Encontro de Interesses

Rod Pereira

13 de dezembro de 2025

Trump recuou. Alexandre de Moraes e sua família saíram da lista da Lei Magnitsky. Eduardo Bolsonaro ficou chupando dedo, olhando para o celular como quem espera uma ligação que nunca vem. Não foi gesto humanitário. Não foi iluminação democrática. Foi negócio fechado. A política externa real funciona assim. Sem lágrimas. Sem discursos. Sem lives.

Quando isso aconteceu, muita gente fingiu surpresa. Mas quem acompanha bastidor não se espantou. Porque o roteiro já vinha sendo escrito havia algum tempo. E o primeiro sinal não apareceu em nota oficial nem em discurso inflamado. Apareceu em tarifa, dinheiro e silêncio estratégico.

Dias antes, parte do tarifaço imposto por Trump começou a ser afrouxada. Não era gentileza. Não era goodwill. Era sinal. Não era esperança. Era informação circulando entre quem decide, não entre quem comenta. Porque sanção não é castigo moral. É ferramenta. E ferramenta se guarda quando deixa de ser útil.

Enquanto isso, no palco, Marco Rubio e Stephen Miller seguiam fazendo teatro ideológico. Discursos contra o BRICS, ameaças grandiosas, frases pensadas para animar militância e render corte de vídeo. Funcionam muito bem nas redes. Funcionam mal na mesa onde o acordo acontece. Porque audiência real não se conquista com retórica. Se conquista com entrega.

É nesse ponto que entra o poder que não grita. O poder que fatura.

Joesley Batista reaparece não como vilão folclórico de delação seletiva nem como empresário arrependido de CPI, mas como operador. Um player que circula onde diplomata pede audiência e ideólogo fica do lado de fora protestando. Quem controla proteína, logística e recursos estratégicos não precisa de cargo. Precisa de telefone que atende.

Poucos dias antes do tal “clima” entre Trump e Lula, Joesley esteve na Casa Branca. Não foi visita protocolar. Não teve foto com bandeira nem cafezinho cerimonial. Foi articulação. A partir dali, passou a operar informalmente entre os dois governos e, de quebra, como interlocutor funcional de interesses americanos na região. Foi ele, a pedido de Trump, quem foi a Caracas negociar uma saída “civilizada” para Maduro. Com escolta, asilo e sobrevida política. Nada de heroísmo. Nada de justiça poética. Só eficiência.

Enquanto isso, no Brasil, as peças começaram a se mover com uma sincronia curiosa demais para ser acaso.

Eduardo Bolsonaro mudou o tom. De repente, passou a ver com “otimismo” as conversas entre Trump e Lula. O radicalismo cedeu lugar a uma cautela constrangida. Trump ganhava um acordo estratégico. Bolsonaro ganhava uma saída do sufoco. O Supremo ganhava paz institucional. Lula ganhava tempo, estabilidade e, possivelmente, eleição.

Flávio Bolsonaro surge como candidato quase por geração espontânea e implode qualquer tentativa de oposição viável fora do bolsonarismo raiz. A anistia avança. A dosimetria avança. Bolsonaro volta ao protagonismo simbólico. Lula reduz a tensão institucional. O conflito vira convivência. O grito vira sussurro. O embate vira arranjo.

Lula e Bolsonaro jogando juntos mais uma vez. Brigando para a plateia, conversando pelo bastidor. Nada exatamente novo para quem já entendeu como funciona a política brasileira quando o risco sistêmico aparece.

Se isso parece teoria da conspiração, ótimo. As melhores sempre parecem. O problema começa quando elas não exigem esforço para fechar o roteiro. Quando os personagens mudam de tom ao mesmo tempo, quando os gestos se alinham sem anúncio prévio e quando o silêncio explica mais do que qualquer discurso.

Aí já não é conspiração.
É método.

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