
Após 33 dias de ocupação da multinacional Cardil, no Pará, a mobilização dos povos indígenas resultou na revogação, pelo governo federal, do Decreto 12.600, que previa a privatização dos rios Rio Tapajós, Rio Tocantins e Rio Madeira. A decisão representa uma das mais expressivas vitórias recentes do movimento indígena na defesa dos territórios tradicionais e do meio ambiente.
A proposta de privatização vinha sendo alvo de críticas desde sua publicação. Lideranças indígenas, organizações socioambientais e pesquisadores apontavam riscos significativos de degradação ambiental, avanço do desmatamento e comprometimento da biodiversidade em áreas sensíveis da Amazônia. Além disso, as comunidades denunciavam a ameaça direta aos modos de vida tradicionais, que dependem dos rios para alimentação, transporte, práticas culturais e espiritualidade.

A ocupação da empresa tornou-se símbolo da resistência. Durante mais de um mês, povos de diferentes etnias mantiveram-se mobilizados, articulando apoio de movimentos sociais, parlamentares e entidades internacionais. A repercussão extrapolou fronteiras, pressionando o governo federal a reavaliar o decreto diante do desgaste político e da crescente atenção pública.
Analistas avaliam que a revogação do Decreto 12.600 evidencia a força da organização coletiva e da articulação nacional e internacional. Mesmo diante dos interesses de uma empresa bilionária e do respaldo inicial do próprio governo, a mobilização popular conseguiu alterar o rumo da decisão política.
A vitória não encerra o debate sobre a exploração de recursos naturais na região, mas reforça um precedente importante: a consulta e o respeito aos direitos dos povos originários, garantidos pela Constituição, são elementos centrais em qualquer política que afete seus territórios. Para as lideranças envolvidas, a revogação do decreto reafirma que a resistência organizada pode produzir mudanças concretas — e que, desta vez, o povo venceu.