Mestre dos Mestres

Recentemente pude me referir a dois baluartes da maçonaria regional, como Mestres dos Mestres. Foi aos venerabilíssimos Irmãos Aldair Neder, que recentemente nos deixou, e a Arenilton Barreto Sampaio, que hoje nos deixa.

A melhor maneira de começar esta conversa seria portanto abrindo o coração e a memória. Afinal, falar de mestres sem falar de afeto é como tentar explicar a abóbada celeste sem mencionar a intensa luz que vem do Oriente. Afinal ambos passaram toda a vida pelo Oriente, iluminando-nos. Foram grandes Oradores, Secretários, Veneráveis, Representantes, Delegados e tudo o mais onde a Ordem lhes permitiu estar presentes. Mas acima de tudo, verdadeiros Irmãos!

Lembro-me do dia em que cruzei as portas do templo e pela primeira vez encontrei Arenilton. Havia aquele mistério no ar muito além do sino que anunciava a abertura dos trabalhos. Acima de tudo, havia a presença dele. Na época, eu mal entendia a simbologia dos graus e degraus, ou o significado do avental branco. Ele, porém, com a serenidade de quem já navegara por muitos mares, aproximou-se e disse simplesmente: "Sérginho, sente aqui perto. A luz não vem de fora; ela acende dentro da gente. Nosso papel é só mostrar o caminho até o interruptor".

Naquela oportunidade, e por inúmeras outras com o qual pude me encontrar, ele ensinou-me sobre retidão e humildade. Com ele entendi que o primeiro degrau para ser um Mestre dos Mestres era enxergar o neófito além da ignorância, descobrir a centelha que ninguém vê e soprá-la com a paciência de quem sabe que o mármore bruto exige cinzel e tempo.

Anos depois, já titubeando pelos graus filosóficos, testemunhei momentos incríveis. Imersões pelos rituais, consensos administrativos, divergências que pareciam intransponíveis que buscavam soluções e se aclaravam diante de suas mãos, mensagens de otimismo e ensinamentos. Enquanto alguns levantavam a voz, o Irmão Areniltom permanecia em silêncio, ocupando seu lugar com a dignidade de quem não precisa gritar para ser ouvido. Quando finalmente falava, suas palavras tinham o peso do malho da sapiência e decidiam sem ferir, apontavam o norte sem humilhar, sem desprestigiar.

Lembro dos bons momentos e também difíceis. De quando ele, com os olhos sempre brilhantes, erguia-se. Não fazia discursos longos. Apenas lembrava que a pedra bruta não reclama do cinzel, mas ela agradece por se tornar algo maior. E com a serenidade de sempre, apresentava um plano, mobilizava irmãos, usava sua influência como Delegado do Grande Primaz do Brasil, jamais para mandar, mas para servir. Assim foi nos construindo.

Mas o título de "Mestre dos Mestres" não se lapida apenas nos momentos solenes, e sim também nos pequenos gestos. Nas visitas que fazia aos irmãos enfermos, ou às lojas jurisdicionadas, sempre levando a certeza de que a corrente nunca se rompe. Nos ágapes depois das sessões, quando ouvia com paciência as aflições de cada um de nós, seus aprendizes. Na forma como tratava o irmão mais humilde com a mesma cortesia com que recebia as autoridades da Potência.

Houve um tempo em que o cargo de Delegado, que exerceu por anos a fio com honra inquestionável, precisou ser passado adiante. Muitos temiam que ele se recolhesse, que a ausência da função oficial lhe roubasse o brilho. Enganamo-nos todos. Mesmo com a saúde em declínio, lá estava ele, ocupando seu lugar no templo, firme como uma coluna. Não precisava mais do título; o título, na verdade, é que sempre precisou dele para ter significado.

Certa vez, perguntei-lhe como fazia para manter a tranquilidade diante dos problemas e a decisão firme diante dos impasses. Ele sorriu, com aquele sorriso peculiar de quem já viu o sol nascer muitas vezes, e respondeu: "Na Maçonaria a gente aprende que ser forte não é empurrar o mundo; é sustentar o que precisa ser sustentado. O resto, o tempo ajusta".

E o que é, afinal, um Mestre dos Mestres? É aquele que domina a arte mais difícil de todas, que é justamente a arte de lapidar almas sem ferir a essência. Ele não é o dono da luz, mas o guardião do fio que conduz a ela. Ele forma homens de bem, cidadãos honrados, pais presentes, maridos dedicados. Seres humanos que, um dia, ao olharem para trás, dirão: "Eu aprendi com ele o que nenhum livro ensina".

No fundo, os altos graus não importam. As comendas e medalhas, as homenagens, os cargos ocupados... tudo isso é ouro que o tempo oxida. O que resta são os olhos de um Aprendiz que se acendem ao entender um símbolo, o aperto de mão firme de um irmão que superou uma prova, o silêncio respeitoso no Oriente quando sua voz se levantava para dar o parecer.

O Irmão Arenilcons Barreto Sampaio, fundador de loja, Venerável, Delegado do Grande Primaz por anos incansáveis, maçom exemplar, homem sereno, decisivo e bom, ensinou-nos que ser Mestre é aceitar que a coluna mais importante vai além da que sustenta o templo, e sim sustenta a alma dos que ali adentram. E que a verdadeira sabedoria não está nem em tentar saber todas as respostas, mas em ter a humildade de continuar aprendendo, mesmo quando todos já te chamam de mestre. Porque, no final, a maior loja que ele construiu é essa loja invisível, feita de caráter, edificada no coração de cada um que teve a honra de chamá-lo, simplesmente, de Irmão.

Ah, ao se encontrar com Aldair, Arenilton, diga que enviamos um TFA.

PSRosseto, 15/03/2026.

Você também pode gostar de: