Ah, o Brasil. Esse lugar onde o absurdo deixou de ser acidente e passou a integrar a paisagem. Por aqui, a realidade abandonou qualquer compromisso com a moderação e decidiu competir diretamente com a ficção. E, sejamos honestos, anda vencendo com folga.
No episódio da vez, o palco recebe Flávio Bolsonaro, senador, filho 01 e protagonista involuntário de mais um daqueles enredos que fariam roteiristas experientes recusarem o trabalho por excesso de inverossimilhança.
No centro da trama está “Dark Horse”, a cinebiografia que conseguiu um feito raro: tornar-se motivo de debate, controvérsia e constrangimento antes mesmo de estrear.
Vale acompanhar o roteiro com calma. Não por curiosidade cinematográfica, mas porque certas histórias políticas brasileiras possuem a extraordinária capacidade de desmoronar sem ajuda externa.
Capítulo 1: O banqueiro desconhecido
Flávio negou tudo com uma fé quase religiosa. Daquelas capazes de transformar até detergente em bandeira ideológica e um frasco de Ypê em peça de campanha.
Mas então surgem as mensagens. E mensagens têm um defeito cruel para quem trabalha com versões: costumam guardar memória.
Ali, o senador parecia demonstrar um grau de proximidade pouco compatível com a tese do desconhecido ocasional. O curioso não é a existência de relações políticas ou financeiras. Brasília vive delas. O curioso é a velocidade com que certas relações parecem mudar de natureza quando os refletores se aproximam.
Capítulo 2: O profissional que chamava de irmão
Mas como acontece em quase toda narrativa contemporânea, o problema não costuma ser a primeira versão. O problema aparece quando surge a necessidade de explicar a segunda.
A relação, disseram, era estritamente profissional. O curioso é que algumas mensagens pareciam trabalhar com definições bastante criativas sobre o significado da palavra "profissional".
Em Brasília, aparentemente, algumas relações profissionais atingem níveis bastante familiares.
"Irmão".
Curioso termo corporativo.
Porque certas palavras possuem memória. E a intimidade, quando registrada, costuma ter o péssimo hábito de sobreviver às coletivas de imprensa.
Capítulo 3: Até o fim... até começar o problema
E então surge o capítulo mais recente. Aquele momento do roteiro em que o espectador abandona a lógica e passa apenas a observar até onde a história pretende ir.
Veio a confirmação da visita à casa de Daniel Vorcaro. Não antes dos problemas. Não antes da turbulência. Mas depois que a situação já havia se tornado pública e delicada.
No Brasil contemporâneo, a realidade tem produzido acontecimentos que fariam qualquer editor devolver um roteiro alegando excesso de fantasia.
E talvez seja justamente esse o grande drama político nacional. Não a existência das versões. Políticos convivem com versões desde que a primeira gravata encontrou o primeiro palanque.
O problema surge quando os bastidores resolvem falar.
Capítulo final: Essa pessoa
Mas nenhuma transformação foi tão curiosa quanto a de Eduardo Bolsonaro.
Até outro dia, parceiro de bastidores, articulador do projeto e peça importante da engrenagem do filme. Agora, nas estranhas alquimias da política brasileira, virou apenas: "essa pessoa".
É impressionante como certas relações políticas sofrem mutações aceleradas quando os refletores mudam de direção.
No Brasil, personagens desaparecem menos por ausência física e mais por conveniência narrativa.
A nova explicação sustenta que os contatos eram estritamente ligados ao filme. Uma justificativa curiosa. Sobretudo porque, em Brasília, quase sempre os bastidores parecem mais interessantes do que a obra principal.
No fim das contas, talvez “Dark Horse” seja mesmo uma cinebiografia.
Apenas não a que imaginaram.
Porque o filme parece cada vez menos sobre Jair Bolsonaro e cada vez mais sobre um país onde personagens mudam de versão, esquecem as falas e deixam para a realidade a tarefa de concluir o roteiro.
E convenhamos: ultimamente a realidade brasileira vem escrevendo ficção muito melhor que Hollywood.