Antes de escolher o presidente, o Brasil assiste à Justiça, aos partidos e aos próprios candidatos retirarem as peças do tabuleiro
A eleição presidencial brasileira transformou-se num grande jogo de eliminação. Não basta ter votos, partido, dinheiro, padrinhos e disposição para comer pastel diante das câmeras. O candidato precisa apresentar certidões, recursos, pareceres jurídicos e uma equipe de advogados capaz de explicar por que determinada investigação não significa exatamente aquilo que todos entenderam.
É o “Resta Um” da democracia brasileira.
As convenções partidárias terminaram ontem, 5 de agosto. Agora já conhecemos as principais peças que os partidos escolheram para colocar no tabuleiro, embora os pedidos de registro ainda possam ser apresentados à Justiça Eleitoral até o dia 15. O eleitor votará apenas em outubro. Antes dele, advogados, tribunais, inquéritos e convenções já fizeram uma seleção preliminar.
Jair Bolsonaro foi a eliminação mais barulhenta.
Durante anos anunciou que seria candidato em 2026, mesmo estando inelegível até 2030 por decisões da Justiça Eleitoral. Depois, foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão por sua participação na tentativa de golpe de Estado. Atualmente cumpre prisão domiciliar por razões humanitárias e está proibido de participar de atividades
político-eleitorais. Bolsonaro não desistiu por falta de votos, não perdeu uma convenção e não foi derrotado numa prévia. Foi retirado do tabuleiro pela Justiça.
Eduardo Bolsonaro também ensaiou ocupar a cadeira do pai. A candidatura, porém, terminou antes de começar. O STF o condenou a quatro anos e dois meses de prisão por tentar interferir, a partir dos Estados Unidos, no julgamento que envolvia Jair Bolsonaro. A condenação também o tornou inelegível. Eduardo permaneceu no exterior e passou da condição de presidenciável à de comentarista internacional da candidatura do irmão.
Pablo Marçal foi outro que prometeu chegar ao Planalto. Sua campanha começou nos cortes motivacionais e encontrou a Justiça Eleitoral pelo caminho. Ele foi declarado inelegível por oito anos por abuso de poder político e econômico, uso indevido dos meios de comunicação e captação ilícita de recursos durante a disputa municipal de 2024. O homem
que ensinava seus seguidores a destravar a prosperidade não conseguiu destravar a própria candidatura.
Nem todas as peças foram expulsas. Algumas perceberam que o jogo estava ficando perigoso e saíram voluntariamente.
Tarcísio de Freitas, durante meses apresentado como a alternativa capaz de unir bolsonaristas, empresários, agronegócio e a direita que ainda sabe usar talheres, preferiu disputar a reeleição ao governo de São Paulo. Sua candidatura estadual foi oficializada em 1º de agosto. Não foi eliminado pela Justiça. Apenas concluiu que é mais seguro conservar o Palácio dos Bandeirantes do que herdar os processos, os conflitos e os parentes do bolsonarismo nacional.
Ciro Gomes recusou mais uma corrida presidencial e voltou ao Ceará. Depois de quatro tentativas de chegar ao Planalto, foi oficializado candidato ao governo estadual. Talvez tenha compreendido que, na política brasileira, insistência pode parecer perseverança durante algum tempo, mas chega uma hora em que começa a ser confundida com reincidência.
Com os eliminados e desistentes fora da disputa, sobraram os sobreviventes.
Lula permanece no jogo como candidato à reeleição. Entra juridicamente sem condenação válida, mas carregando um passado processual que não desapareceu da memória política nacional.
Ele foi condenado no caso do tríplex, teve a condenação confirmada por unanimidade pelo TRF-4 e posteriormente mantida pelo STJ, que reduziu a pena. Em 2021, o STF anulou as decisões por entender que a Justiça Federal de Curitiba não era competente para julgar os processos. Em decisão separada, o Supremo reconheceu a parcialidade de Sergio Moro na condução do caso do tríplex.
A distinção é importante. Lula não foi absolvido depois de um julgamento que concluísse pela inexistência dos fatos. As condenações foram anuladas por incompetência do juízo e por vícios processuais. Juridicamente, ele é hoje um cidadão sem condenação válida e plenamente elegível. Politicamente, entretanto, a memória não aceita recurso, embargo ou declaração de incompetência territorial.
E, como se o passado do pai não fosse suficiente para abastecer os adversários, surge o presente do filho.
Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, tornou-se alvo de três inquéritos autorizados pelo STF, todos abertos a pedido da Polícia Federal. As apurações investigam suspeitas de tráfico de influência e possível atuação para facilitar negócios privados junto ao Ministério da Saúde, à Dataprev e a outros órgãos federais. A defesa nega irregularidades e afirma que ele jamais usou a posição do pai para beneficiar empresários.
Lula diz que não protegerá o filho. A campanha adversária, naturalmente, fará o possível para transformar cada página dos inquéritos numa peça do horário eleitoral. No Brasil, a
herança política já não inclui apenas sobrenome, partido e curral eleitoral. Inclui também investigações.
Do outro lado está Flávio Bolsonaro, escolhido para ocupar a cadeira deixada pelo pai.
Flávio entra na disputa carregando a investigação sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. O senador admitiu ter procurado o banqueiro Daniel Vorcaro para obter milhões de reais para o projeto. André Mendonça autorizou a Polícia Federal a investigar os repasses e as possíveis relações entre o dinheiro, o Banco Master e interesses políticos. Flávio afirma que buscou recursos privados para uma produção privada e nega qualquer contrapartida.
Há ainda o inquérito no qual a Polícia Federal concluiu que Flávio teria cometido calúnia contra Lula ao lhe atribuir crimes como tráfico internacional de drogas, tráfico de armas e lavagem de dinheiro. A defesa nega a prática criminosa. Flávio também aparece relacionado a uma apuração sobre uma emenda de R$ 199 mil destinada a uma entidade investigada por suspeitas de ligação com o grupo político dos irmãos Brazão. Até o momento, não há acusação formal de que ele tenha participado de eventual desvio.
E existe, evidentemente, o caso das rachadinhas em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio.
A denúncia envolveu Fabrício Queiroz, funcionários suspeitos de não trabalhar efetivamente, movimentações em dinheiro vivo, transações imobiliárias e a hipótese de lavagem de recursos por meio de uma franquia da Kopenhagen. Flávio não foi condenado. Provas foram anuladas por decisões do STF e do STJ, e a denúncia acabou arquivada sem julgamento do mérito. Uma nova tentativa de retomar a investigação também foi rejeitada.
O processo pode ter acabado juridicamente. Eleitoralmente, Queiroz, os imóveis, os depósitos, os chocolates e os funcionários continuarão trabalhando durante toda a campanha.
Na última quarta-feira, Flávio completou a chapa escolhendo o deputado alagoano Alfredo Gaspar para vice-presidente.
Gaspar é ex-promotor de Justiça, ex-procurador-geral de Justiça de Alagoas, ex-secretário estadual de Segurança Pública e foi relator da CPMI que investigou as fraudes no INSS. Sua escolha tem uma lógica evidente. Ele oferece à chapa um discurso de combate à corrupção e ao crime organizado, cria uma ponte com o Nordeste e coloca ao lado de Flávio justamente o parlamentar que tentou levar Lulinha ao centro das investigações do INSS.
Mas a escolha também expõe o isolamento político de Flávio. Depois de tentar atrair uma mulher e um partido do centro, acabou formando uma chapa exclusivamente do PL. Tereza Cristina recusou o posto, partidos conservadores preferiram a neutralidade e a candidatura terminou buscando dentro da própria casa o vice que não conseguiu encontrar fora dela.
Gaspar também traz suas próprias ironias.
O relatório de mais de quatro mil páginas que apresentou na CPMI do INSS, propondo o indiciamento de 216 pessoas, foi rejeitado por 19 votos a 12. A comissão encerrou os
trabalhos sem aprovar relatório final. Aquilo que agora será apresentado como grande credencial investigativa não conseguiu convencer nem a maioria da própria comissão.
Além disso, o candidato a vice aparece em procedimentos que ganharam destaque justamente após sua escolha.
A Polícia Federal realizou uma análise preliminar de uma acusação de estupro de vulnerável apresentada contra Gaspar por parlamentares. A Procuradoria-Geral da República pediu novas diligências, e o ministro Gilmar Mendes ainda deverá decidir se autoriza a abertura formal do inquérito. Gaspar nega a acusação, afirma que a história envolveria outra pessoa de sua família e diz possuir exame de DNA que demonstraria a falsidade da denúncia. Não há condenação e, neste momento, nem sequer existe inquérito formal autorizado.
O Tribunal de Contas da União também apura a destinação de aproximadamente R$ 6 milhões em emendas indicadas por Gaspar para municípios de Alagoas. O deputado nega irregularidades e sustenta que sua responsabilidade se limita à indicação dos recursos. A apuração não significa que tenha ocorrido desvio, muito menos que Gaspar tenha participado de algum crime. Mas, no “Resta Um” brasileiro, até o vice escolhido para moralizar a chapa precisa chegar acompanhado de um parágrafo da defesa.
Ronaldo Caiado é outro sobrevivente jurídico. Em dezembro de 2024, uma decisão de primeira instância declarou-o inelegível por oito anos por abuso de poder político nas eleições municipais de Goiânia. Em abril de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de Goiás reverteu a inelegibilidade e manteve apenas uma multa. Caiado ouviu a música da eliminação, recorreu ao árbitro e conseguiu permanecer no jogo.
Romeu Zema também entrou no radar judicial. Gilmar Mendes pediu sua inclusão no inquérito das fake news por causa de um vídeo com bonecos que associava ministros do STF ao escândalo do Banco Master. A Procuradoria-Geral da República discordou da inclusão no inquérito, e Zema não foi condenado nem declarado inelegível. Por enquanto, é apenas mais um presidenciável que descobriu que, no Brasil, até fantoche pode produzir notícia-crime.
O resultado é uma eleição em que se discutirá menos sobre educação, saúde, economia e desenvolvimento do que sobre competência jurisdicional, nulidade processual, inelegibilidade, tráfico de influência, calúnia, abuso de poder, lavagem de dinheiro e relatórios policiais.
Cada grupo chamará a investigação contra o adversário de funcionamento das instituições. Quando a mesma instituição alcançar um aliado, surgirão imediatamente perseguição, ativismo judicial, ditadura e alguma comparação histórica completamente absurda.
A régua moral brasileira continuará funcionando como sempre. Para o inimigo, basta uma denúncia. Para o aliado, nem uma condenação será suficiente.
O eleitor chegará apenas no episódio final. Encontrará um tabuleiro reduzido, candidatos cercados por advogados e campanhas ocupadas em explicar pais, filhos, assessores, banqueiros, chocolates, emendas, inquéritos e exames de DNA.
Então será chamado a escolher o futuro.
No “Resta Um” das eleições brasileiras, não vence necessariamente o candidato mais preparado, o projeto mais consistente ou a liderança mais confiável.
Vence quem conseguir chegar à urna sem ter sido retirado do tabuleiro.