O destino mais comentado no Réveillon de 2026, com a presença marcante de celebridades, segue sendo um fosso de desigualdade, abandono e total ausência de Poder Público.
Não se enganem, a cidade é assim, pois é pensada para ser assim. A partir da beira da praia, dos condomínios à beira-mar e bairros sobre falésias. O resto: territórios tradicionais, periferias, terras indígenas, são completamente ignorados.
Um destes territórios é Sapirara. Uma antiquíssima região rural ligada a Trancoso, cada vez mais próxima do núcleo urbano, que até hoje fingem não existir.
Desta vez Sapirara foi largada no escuro, segundo a Coelba, por excesso de ligações clandestinas e falta de planejamento. A Prefeitura, por sua vez, faz sempre o papel mais covarde: o de dizer que o problema não é dela.
E não é uma postura exclusivamente da atual gestão, que é reconhecida por terceirizar problemas e anunciar soluções que sequer existem. O problema vem de longe, das subsequentes gestões de Porto Seguro voltadas única e exclusivamente para favorecer o mercado imobiliário.
O que ocorre em Sapirara se repete por todo o município, bairros inteiros surgem e se desenvolvem sem nenhum controle. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano, focada em licenciamento de grandes empreendimentos imobiliários pé-na-areia, ignora solenemente que é preciso construir também uma cidade para seus moradores. Mas como não dá dinheiro: eles que se virem!
Basta olhar o Plano Diretor (e seu descumprimento diário) para perceber que a cidade só é planejada paralela à beira-mar e no entorno de vias de acesso importantes, onde a valorização imobiliária já aconteceu. Nas demais localidades o PDDU é um imenso vazio de regras genéricas e nunca observadas.
Sapirara está justamente nesse vazio. Um lugar que recepcionou boa parte da mão-de-obra local para viver, já que morar perto do núcleo urbano de Trancoso tem se tornado cada vez mais caro, mas que foi sendo ignorada ao longo dos anos. Afinal, para quê cuidar do espaço onde os trabalhadores viverão?
Esse desenvolvimento descontrolado experimenta agora apenas uma de suas consequências: a concessionária de energia elétrica, que também presta um serviço muito aquém do adequado, corta o fornecimento, deixando toda uma população no escuro.
Não é preciso prever o futuro para saber o resultado: dias de abandono, prefeitura vai dar um jeito de religar de qualquer jeito e sem planejamento dialogando com a concessionária e com o Governo do Estado, na época eleitoral vão calçar correndo meia dúzia de ruas, e pronto. Como se fosse suficiente para um bairro que já pode ser considerado um distrito.
Cabe ao povo ter pensamento crítico, pois ficar no escuro é apenas uma das consequências para quem a prefeitura nunca fez questão de enxergar.