Operação no Complexo do Alemão e da Penha completa uma semana

A operação das forças de segurança no Complexo do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, completou uma semana sob um clima de tensão e medo. A intervenção, que já é considerada a quarta chacina sob a gestão do governador Cláudio Castro, trouxe à tona questionamentos sobre sua real eficácia e o impacto social das ações policiais em áreas periféricas.

Batizada de Operação Contenção, a ação cumpriu 20 dos 100 mandados de prisão que motivaram sua realização. Especialistas alertam que operações desse tipo, sem articulação estratégica e com resultados parciais, podem enfraquecer uma facção criminosa apenas para fortalecer outra, perpetuando o ciclo de violência e disputa por poder nas comunidades.

Apesar do discurso oficial de combate ao crime organizado, moradores relatam a ausência de serviços básicos de apoio durante a operação. Não houve atuação estruturada do Corpo de Bombeiros, nem equipes de primeiros socorros, Defensoria Pública ou Ministério Público, o que evidencia a falta de planejamento para garantir socorro aos civis e policiais. Também foi notada a ausência da Guarda Municipal para ordenar o trânsito e reduzir o impacto da operação nos demais bairros, agravando o caos urbano.

Por outro lado, milhares de pessoas inocentes ficam presas no fogo cruzado, correndo sérios riscos de morte. Idosos, mulheres, crianças e homens sem qualquer relação com o crime vivem sob constante ameaça, vítimas de uma geografia social que os obriga a morar em áreas vulneráveis. A pobreza e a falta de oportunidades tornam esses cidadãos duplamente penalizados: pela violência cotidiana e pela negligência do Estado, que lhes nega o direito à cidadania e à dignidade humana.

Cláudio Castro é o 7º governador do Rio de Janeiro alvo de investigação nos últimos 8 anos. Cinco deles foram presos - Moreira Franco, Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Rosinha Garotinho e Anthony Garotinho. A polícia federal (PF) o indiciou pelos crimes de corrupção e peculato.

O deputado federal pastor Otoni de Paula afirmou que quatro fiéis de sua igreja estão entre os mortos, reforçando o alerta sobre o risco de generalização e da execução de suspeitos sem julgamento. Além da tragédia humana, a prática compromete as investigações — cada suspeito morto é uma fonte de informação perdida sobre as redes do crime.

Desde o início da gestão de Cláudio Castro, o Rio de Janeiro já contabiliza diversas operações com elevado número de mortos. Em maio de 2021, a Chacina do Jacarezinho deixou 28 mortos e entrou para a história como a mais letal do estado. Em maio de 2022, uma operação na Vila Cruzeiro terminou com 23 mortos, e em julho de 2022, nova ação no Complexo do Alemão resultou em 18 mortes. Esses episódios consolidam um padrão de enfrentamento marcado por letalidade policial, pouca transparência e escasso resultado estrutural no combate ao crime.

A operação no Alemão e na Penha expõe o paradoxo da segurança pública no Rio: entre o medo e a promessa de ordem, o Estado continua apostando na força em vez da inteligência. A ausência de planejamento integrado e de amparo institucional transforma a política de segurança em palco de disputa eleitoral, enquanto a população permanece refém da violência — seja a do tráfico, seja a do poder público.

No contexto pré-eleitoral de 2026, a narrativa da “guerra ao crime” tem sido utilizada por Cláudio Castro como ferramenta de afirmação política junto ao eleitorado conservador. Ao enfatizar ações ostensivas e resultados imediatos, o governador tenta reforçar uma imagem de autoridade e controle, ainda que às custas de críticas por violações de direitos humanos e ineficácia estrutural. O desafio para o Rio de Janeiro, contudo, vai além do enfrentamento armado: passa por repensar a segurança pública como política de Estado, e não como instrumento de campanha.


Mais do que uma operação policial, o episódio simboliza a persistência de um modelo de segurança que privilegia a morte em lugar da prevenção, o improviso em vez do planejamento e o espetáculo em detrimento da justiça. Enquanto a política se alimenta do medo, o Rio continua à espera de uma solução que traga paz.

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