
A cena é chocante, mas tornou-se realidade para dezenas de famílias em Arraial d’Ajuda: pais e mães dormindo na rua, em frente a unidades escolares, na esperança de garantir uma vaga para os filhos em creches e escolas do município. Mesmo após noites em claro, fome e chuva, muitas famílias não foram contempladas e voltaram para casa sem qualquer solução.
Uma mãe, que prefere não ser identificada, relatou a situação humilhante vivida durante o processo de tentativa de matrícula. Segundo ela, inicialmente foram anunciadas 60 vagas, mas, no momento da distribuição, o número caiu para apenas 43, deixando dezenas de crianças de fora.
“Eu dormi na rua, em frente à escola. Tomei chuva, passei fome. O pai das crianças teve que faltar no serviço para cuidar delas enquanto eu ficava na fila. No fim, disseram que não tinha vaga e que a prefeitura não tinha nada a ver com isso. Mandaram a gente voltar pra casa”, relatou.
O sentimento predominante entre os pais é de abandono e desrespeito. A exigência implícita de que famílias durmam nas calçadas para disputar vagas em serviços básicos expõe uma falha grave na gestão da educação infantil e do ensino público municipal.
A situação causa ainda mais indignação quando se considera o contexto econômico de Porto Seguro. O município está entre os destinos turísticos mais procurados do país, registra alta arrecadação, especialmente durante a alta temporada, e movimenta milhões com turismo, eventos e serviços. No entanto, esse sucesso econômico não se reflete em qualidade e dignidade nos serviços essenciais para a população local.
Para muitas famílias, o episódio evidencia a ausência de planejamento, transparência e responsabilidade do poder público. Educação é um direito constitucional, e não um privilégio disputado em filas degradantes. O que se vê hoje é uma população obrigada a se submeter a condições humilhantes, sem garantia de atendimento e sem respostas claras da administração municipal.
A pergunta que fica é simples e urgente: até quando mães e pais de Porto Seguro continuarão sendo tratados com descaso, enquanto o município celebra números positivos do turismo e da arrecadação?