PEC da Blindagem Bandidagem: quando a raposa escreve as regras do galinheiro

A Câmara dos Deputados aprovou o que só pode ser chamado de PEC da Bandidagem. Esqueça o eufemismo de “blindagem”. Aqui não tem sutileza: trata-se do alvará de soltura coletivo da classe política, o crachá vitalício da impunidade.

Sobre a seriedade da política brasileira, basta lembrar o que cantava Bezerra da Silva “Só quando o morcego doar sangue / E o saci cruzar as pernas” Aí então o político vai ser honesto”. Até lá, continuam blindados, de paletó e com as digitais limpas pela canetada dos próprios colegas.

Entre 1988 e 2001, o STF mandou 254 pedidos de investigação contra deputados e senadores. O que a Câmara fez? Engavetou 253. Só um único caso seguiu adiante. Foram 210 pedidos enterrados por omissão e 43 rejeitados com a cara de pau de votação explícita. Como na música “Reunião de Bacanas“ do grupo Fundo de Quintal: “Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”.

E os nomes não deixam dúvidas: Valdemar Costa Neto, protegido da turma; Nobel Moura, acusado de homicídio, mas blindado pelos pares; Ronaldo Cunha Lima, que atirou num adversário político e só foi julgado quando perdeu o mandato. Não era Parlamento, era abrigo para fugitivos engravatados.

Agora a PEC da Bandidagem ressuscita esse circo, mas com discurso pomposo de “defesa da democracia”. Democracia? Essa PEC é tão democrática quanto porteiro de brega que só deixa entrar quem tem dinheiro pra pagar.

Enquanto o trabalhador que furta comida é algemado na frente dos filhos, o deputado que desvia milhões ganha blindagem com direito a aplausos e selfie em plenário. O Brasil oficializou a piada: crime compensa desde que você tenha crachá parlamentar.

E ainda há quem suba à tribuna para bater no peito e dizer, com orgulho, que sim, é preciso blindar o Congresso de um “STF político”. O nobre deputado Nikolas Ferreira confessou em alto e bom som: “Sim, queremos ser blindados mesmo de um STF que age como agente político contra membros dessa casa”. A sinceridade ao menos dispensa legenda: não é blindagem, é carteirada institucionalizada.

O recado é claro: se você é cidadão comum, a lei é um porrete. Se você é deputado, a lei é tapete vermelho. E com a PEC da Blindagem, a Câmara provou que prefere ser lembrada não como “Casa do Povo”, mas como escola de samba da impunidade, onde o samba-enredo é escrito por Bezerra e dançado por corruptos.

No fim das contas, a política brasileira virou aquilo que Bezerra já denunciava em suas letras: um grande pagode da malandragem, onde “os otários trabalham, os malandros passeiam” e os deputados blindados riem de todos nós, direto do camarote do crime autorizado.

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