
Indígenas denunciam destruição de construções e impactos ambientais provocados por obras e interesses imobiliários na região
A BR-367, na altura de Taperapuã, em Porto Seguro, foi interditada nesta segunda-feira, dia 17/11/2025, por representantes do povo Pataxó, que protestaram contra a derrubada de estruturas erguidas às margens da rodovia. As construções – ocas e kijemes – haviam sido feitas em uma área reivindicada como tradicional pelos indígenas, mas que também é alvo de disputa envolvendo e empresários ligados à especulação imobiliária.
De acordo com a cacica Iracema, a principal reivindicação do grupo é a preservação do rio que corta a região. Ela afirma que as obras em curso e outras já realizadas estariam comprometendo o curso d’água e afetando o manguezal, situação semelhante à degradação registrada no riacho Chamagunga. “Sem água, sem floresta, sem nada, não tem como o índio existir. O rio estava sendo destruído. Viemos para cá, fizemos nossas ocas e kijemes, e eles destruíram tudo de madrugada”, afirmou. A ação da prefeitura, segundo ela, envolveu máquinas, funcionários municipais, agentes da Guarda Municipal e a Polícia Militar, o que teria provocado “um clima de terror” entre as famílias da comunidade.
A prefeitura tem se mostrado muito eficiente em remover — e às vezes destruir — barracas e edificações de pessoas pobres. A pergunta que surge é se a mesma agilidade e rigor se aplicam quando as construções envolvem grupos com maior poder econômico.
A área em disputa tem sido alvo de forte pressão imobiliária, o que intensifica conflitos e coloca em risco ecossistemas frágeis. A preocupação dos Pataxó com a proteção dos recursos hídricos encontra respaldo em estudos acadêmicos recentes. Na tese de doutorado defendida em 20 de outubro de 2025 por Ricardo Almeida Cunha, no Programa de Pós-Graduação em Estado e Sociedade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), o pesquisador aponta o protagonismo do povo Pataxó na governança da água em Porto Seguro. O trabalho destaca a Aldeia da Jaqueira como exemplo de integração entre saberes tradicionais e ciência cidadã para a conservação hídrica.
Segundo Cunha, a água é compreendida pelos Pataxó como bem social, cultural e espiritual, e sua proteção depende de políticas públicas que reconheçam essa visão e garantam participação efetiva das comunidades indígenas na gestão territorial e ambiental.

O protesto em Taperapuã reacende o debate sobre os limites entre as ações do poder público, os interesses privados e a garantia dos direitos dos povos originários — especialmente quando o desenvolvimento urbano avança sobre áreas que desempenham papel vital na manutenção dos recursos naturais e da própria identidade cultural da região.