
Enquanto centenas de ruas em Porto Seguro seguem afundadas na lama ou cobertas pela poeira, a prefeitura decidiu investir recursos públicos na reforma da Rua Pero Vaz de Caminha — uma via que já era asfaltada. A intervenção expõe mais uma vez a contradição entre as prioridades da gestão e as necessidades reais da população.
Mais do que gastar o que o município possui em caixa, o prefeito Jânio Natal recorre a empréstimos milionários, empurrando para o futuro dívidas que comprometerão a capacidade de investimento da cidade. Um novo pedido de financiamento foi encaminhado à Câmara de Vereadores e deve ser aprovado, evidenciando a conivência da maioria da Casa Legislativa com esse processo de endividamento — à exceção do vereador Kempes Neville (Bolinha), que se posiciona contrário.
Tudo tem sido feito sem consulta popular, sem debates públicos e sem critérios técnicos claros. O resultado é a sensação de escárnio: obras de caráter estético em detrimento de demandas urgentes, como pavimentação de bairros inteiros, mobilidade urbana precária, saneamento e drenagem.
Em entrevista nesta semana, o próprio prefeito praticamente admitiu a possibilidade de perder o cargo por ser considerado “prefeito itinerante” e pela polêmica de ter se eleito três vezes seguidas em municípios diferentes. Nesse contexto, as obras em ritmo acelerado ganham contornos suspeitos: mais propaganda eleitoral antecipada do que benefício efetivo à população.
A reforma da Rua Pero Vaz de Caminha, portanto, simboliza não apenas uma escolha administrativa questionável, mas também um modo de governar marcado pelo improviso, pela ausência de planejamento e pelo endividamento contínuo.