República de Idiotas

Dois presidentes já foram parar no banco dos réus desde a redemocratização. Collor, que caiu na armadilha do próprio moralismo de araque. Lula, que mergulhou no pântano ético que jurava drenar. E agora Bolsonaro, acusado não de meter a mão no cofre, mas de querer meter o país inteiro num laboratório de golpe.

No meio disso, o Brasil segue se dividindo como torcida organizada. De um lado, a pseudo-direita de verde e amarelo, sempre disposta a bater continência para qualquer farda. Do outro, a suposta esquerda, com sua mortadela ideológica servida em rodízio de indignação. É a eterna briga entre “coxinhas” e “mortadelas”, uma rinha digital onde ninguém se escuta, todos se xingam, e a palavra mágica para justificar o espetáculo é sempre a mesma: democracia.

Mas afinal, o que é democracia? Não é o discurso vazio de palanque nem o trending topic em rede social. Democracia, no sentido mais cru, é o poder do povo para decidir os rumos da coletividade. E aqui está a tragédia: no Brasil, o povo nunca foi protagonista. É apenas figurante, convocado de quatro em quatro anos para legitimar o próximo saqueador.

Na Grécia antiga, idiōtēs “idiota” era o indivíduo que se afastava da vida pública, pensando apenas em si. Hoje, o idiota é o brasileiro que acredita que essa democracia é a virgem a ser protegida. Não é. No Brasil, a democracia virou viúva: cansada, explorada, e ainda assim cobiçada por quem a saqueia com promessas de devoção.

E seguimos assim, num ciclo em que cada julgamento de ex-presidente é celebrado como catarse coletiva. Como se condenar um governante fosse suficiente para salvar a pátria. Não é. O que deveria ser aprendizado virou hábito. Já não se trata de corrigir os erros da democracia, mas de usá-los como combustível para a próxima guerra de narrativas.

No fim, a democracia brasileira não é virgem nem senhora respeitável. É uma velha viúva, sempre cortejada por quem promete amor eterno e, logo depois, desaparece com suas joias. E nós, espectadores dessa tragicomédia, seguimos aplaudindo como idiotas convictos.

O Brasil, afinal, conseguiu reinventar a roda: aqui a democracia não morre ela é estuprada em praça pública e ainda tem que agradecer a gentileza.

Rod Pereira

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