
EUNÁPOLIS – O Colegiado Territorial de Desenvolvimento Sustentável (CODETER) na região sediou, no último dia 11 de agosto, uma das plenárias mais emblemáticas de sua história recente. O encontro colocou formalmente na mesa de discussões a proposta de alteração da denominação oficial do território de identidade para "Território Pindorama". O debate transcendeu as burocracias institucionais, tocando em profundas feridas históricas, sociológicas e na própria identidade do que se convencionou chamar de "Berço do Brasil".
Do Eurocentrismo ao Resgate Ancestral
A proposta apresentada na reunião de Eunápolis busca provocar uma guinada de perspectiva. O termo vigente, "Costa do Descobrimento", carrega o peso da narrativa colonialista e eurocêntrica, conferindo o protagonismo da história regional à chegada dos navegadores europeus em 1500.
Mudar o nome do território de identidade para "Pindorama" — termo de origem tupi-guarani que significa "Terra das Palmeiras" — é um ato político de reconhecimento de que o Brasil não começou com o desembarque das caravelas. A iniciativa visa validar e visibilizar a existência, a cultura e os saberes de milhares de habitantes indígenas que já viviam aqui muito antes do contato europeu.
Impactos Sociológicos e Simbólicos
- Simbólico (Descolonização do Olhar): Substituir uma marca colonial por um nome originário mexe diretamente com a autoestima dos povos tradicionais da região (como os Pataxó). É a transição de um território visto como "achado" ou "propriedade" para uma região reconhecida por sua autonomia histórica pré-colonial.
- Sociológico (Inclusão e Políticas Públicas): O Codeter é a base de formulação para o desenvolvimento sustentável. Introduzir o referencial "Pindorama" altera a narrativa de planejamento técnico do Estado, forçando com que políticas de turismo, agricultura familiar e infraestrutura passem, obrigatoriamente, pelo crivo da sustentabilidade humana e do respeito às comunidades originárias já estabelecidas.
O Paradoxo do "Berço do Brasil"
O maior desafio debatido no encontro gira em torno do forte referencial socioeconômico que o título "Berço do Brasil" possui, especialmente para Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e os demais municípios consorciados. O nome "Costa do Descobrimento" é uma marca internacional de apelo turístico consolidada.
Para os defensores da mudança, contudo, a verdadeira riqueza do "Berço do Brasil" não deve residir apenas no ponto de chegada do colonizador, mas sim na coexistência e na valorização dos povos sobreviventes que moldaram a real essência da nação.
A proposta passará por novas etapas de análise, procedimentos oficiais e ato do governo do Estado.