
Centenas de famílias do bairro Sapirara, no distrito de Trancoso, vivem dias de angústia diante da falta de energia elétrica que já se prolonga por vários dias. A situação escancara uma contradição cada vez mais evidente: enquanto Trancoso é exaltado nacional e internacionalmente como polo turístico de alto padrão, comunidades inteiras seguem privadas de serviços básicos essenciais.
Nas redes sociais, circula um comunicado atribuído à Coelba — concessionária responsável pelo fornecimento de energia elétrica — informando que os desligamentos ocorreram em razão da “remoção de ligações e redes consideradas clandestinas”, com o objetivo de corrigir sobrecargas no sistema. A justificativa, no entanto, levanta uma série de questionamentos por parte dos moradores.

Como explicar que supostas irregularidades envolvendo centenas de residências só tenham sido identificadas agora? Essas ligações existiam há quanto tempo? Houve notificação prévia aos usuários? A remoção seguiu critérios legais, técnicos e sociais compatíveis com a natureza essencial do serviço de energia elétrica?
Enquanto essas perguntas seguem sem respostas claras, moradores do Sapirara têm realizado manifestações, incluindo interdições na BA-001 e mobilizações nas redes sociais, numa tentativa de chamar a atenção do poder público e da concessionária. O sentimento predominante é de desespero: sem energia, famílias enfrentam prejuízos com alimentos, dificuldades para trabalhar, estudar e manter condições mínimas de dignidade.
A postura da Prefeitura, até o momento, tem sido vista como omissa diante do cenário caótico. Em um território onde o turismo movimenta milhões, a ausência de uma mediação firme do poder público reforça a percepção de que o morador local permanece em segundo plano frente aos interesses econômicos.
É importante lembrar que a energia elétrica é um bem essencial, assegurado por lei, e sua interrupção não pode ocorrer de forma indiscriminada, sobretudo quando afeta comunidades inteiras. A Coelba — atualmente Neoenergia Coelba — atua como concessionária de um serviço público. Embora tenha sido privatizada em 31 de julho de 1997, em leilão realizado na Bolsa do Rio de Janeiro e adquirida por um consórcio liderado pela Iberdrola (hoje parte do grupo Neoenergia), sua responsabilidade social e regulatória permanece.
Ao longo dos anos, a atuação da empresa tem sido alvo de críticas na Bahia, especialmente quanto à qualidade do serviço, à infraestrutura precária em áreas periféricas e à fiscalização por parte da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). O episódio de Sapirara reacende o debate sobre a efetividade da concessão, a necessidade de investimentos estruturais e o papel do Estado na garantia de direitos básicos.
A crise energética no bairro não é apenas um problema técnico: é um sintoma de um modelo de desenvolvimento que valoriza o cartão-postal, mas negligencia quem sustenta o cotidiano da cidade. Enquanto o turismo brilha, Sapirara permanece às escuras — literal e simbolicamente.