No Brasil, certas doenças econômicas têm cura instantânea. Não por avanço da ciência, não por descoberta acadêmica e muito menos por alguma genialidade administrativa. Basta uma eleição se aproximar.
Foi exatamente isso que aconteceu com a famosa "taxa das blusinhas".
Quando ela surgiu, a narrativa oficial era digna de um documentário dramático. O comércio nacional estava ameaçado. As indústrias brasileiras estavam sob ataque. Pequenos empreendedores lutavam pela sobrevivência. Era preciso agir imediatamente para proteger empregos, defender a produção nacional e impedir que plataformas estrangeiras destruíssem nossa economia.
A taxa não era uma arrecadação. Não. Era quase um ato patriótico.
Quem reclamava era acusado de não compreender a importância de fortalecer a indústria brasileira. Comprar uma blusinha importada parecia algo próximo de conspirar contra a economia nacional.
Mas eis que o calendário avançou. E então aconteceu o milagre. De repente, aquilo que era essencial deixou de ser tão essencial assim. A proteção da indústria nacional entrou em promoção. Os empregos que precisavam ser defendidos urgentemente parecem ter recebido alta médica.
As empresas brasileiras, que segundo o discurso oficial estavam à beira do colapso sem a taxação, agora aparentemente conseguem sobreviver sozinhas.
Curioso. Se a taxa era indispensável para salvar a economia, por que pode ser flexibilizada agora?
Se ela era tão estratégica para a indústria nacional, por que sua importância diminui exatamente quando os eleitores começam a prestar mais atenção na política?
Talvez exista uma explicação técnica extremamente sofisticada. Talvez algum fenômeno econômico desconhecido faça com que a necessidade de proteger a produção nacional desapareça nos anos eleitorais. Ou talvez exista uma explicação muito mais simples: Chama-se urna.
No Brasil, a urna possui propriedades quase mágicas. Ela reduz impostos que eram indispensáveis. Ela transforma medidas impopulares em erros de comunicação. Ela converte convicções inabaláveis em posicionamentos flexíveis. Ela faz governantes descobrirem, subitamente, que o bolso do cidadão existe.
É uma força extraordinária.
Durante meses, o consumidor podia pagar mais porque era necessário. Agora, às vésperas da eleição, ele não pode mais pagar porque seria injusto.
A mesma cobrança.
O mesmo produto.
O mesmo governo.
A mesma economia.
Mas um calendário completamente diferente.
Eis a verdadeira maravilha brasileira: não é a taxa das blusinhas. É a capacidade da política de alterar leis fundamentais da lógica. Afinal, se ontem a medida era indispensável e hoje ela já não é, alguém está admitindo uma das duas coisas.
Ou a taxa nunca foi tão necessária quanto diziam. Ou continua sendo necessária, mas a eleição é mais importante.
Em ambos os casos, sobra uma pergunta que nenhum marqueteiro consegue responder sem tropeçar: Afinal, estavam protegendo a indústria brasileira ou protegendo a própria popularidade?
Porque, pelo visto, uma das duas perdeu prioridade no caminho.
Mas não sejamos injustos. Viva o governo brasileiro, sempre atento ao povo brasileiro. Sobretudo quando o povo brasileiro está prestes a votar. Afinal, nada aproxima mais um governante do cidadão do que a distância de uma eleição.