VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER. O QUE VOCÊ TEM COM ISSO?

Neste domingo, 7 de dezembro, atos serão realizados em diversas cidades brasileiras para denunciar o crescimento da violência contra as mulheres. Entre os movimentos envolvidos está o Movimento Nacional Mulheres Vivas, que organiza mobilizações em resposta ao aumento dos casos de feminicídio — tentados e consumados — e às recentes agressões que chocaram o país.

Um dos episódios que reacenderam o alerta foi o de Tainara Souza Santos, de 30 anos, brutalmente arrastada por um carro na Marginal Tietê, em São Paulo. A agressão, realizada por Douglas Alves da Silva, resultou na amputação das duas pernas da vítima, que permanece internada em estado grave. O agressor está preso e responde a inquérito policial. O caso expõe, mais uma vez, a face extrema de um problema estrutural que se repete todos os dias no Brasil.

A violência de gênero como marca estrutural do país

A violência contra a mulher é um fenômeno social, cultural e de saúde pública, sustentado por relações históricas de desigualdade entre homens e mulheres. Ela se manifesta em agressões físicas, psicológicas, sexuais, patrimoniais e morais, e está profundamente naturalizada no cotidiano brasileiro. Ainda que leis como a Maria da Penha e o feminicídio tenham avançado na proteção legal, a realidade mostra que a prevenção e o enfrentamento ainda esbarram em lacunas do Estado e em raízes culturais machistas.

No município de Porto Seguro (BA), a urgência desse enfrentamento também se evidencia. Segundo dados da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), apenas entre os dias 1º e 11 de janeiro de 2024, foram registradas 22 ocorrências, resultando em 19 inquéritos instaurados e duas prisões. Os números, apresentados no projeto de extensão “Desafios da violência contra a mulher na cidade de Porto Seguro”, da Faculdade Atenas de Medicina, reforçam a necessidade de ações educativas, preventivas e de fortalecimento das redes de apoio.

A pergunta que se impõe é: “O que você tem com isso?”

Nas redes sociais, campanhas recentes têm provocado principalmente homens a se posicionarem contra a violência de gênero. A mensagem é clara: não basta “não agredir”; é preciso atuar ativamente contra comportamentos violentos e misóginos que circulam no cotidiano — piadas, silêncios, omissões, normalizações e cumplicidades.

A pergunta provocadora — “O que você tem com isso?” — desloca o debate da esfera privada para a responsabilidade coletiva. Ela questiona:

  • O que os homens fazem quando um amigo humilha a parceira?
  • Quando presenciam uma situação de risco na rua?
  • Quando percebem sinais de controle, ciúme excessivo ou manipulação emocional entre conhecidos?
  • Quando se deparam com discursos que culpabilizam vítimas?

Pesquisadores e movimentos feministas alertam que a violência não começa no golpe, mas em padrões culturais que naturalizam o domínio masculino e a desigualdade. Por isso, exigir engajamento masculino não é uma acusação, mas um convite à responsabilidade social.

O enfrentamento exige mais que leis: exige transformação cultural

Embora a legislação brasileira seja considerada uma das mais avançadas da América Latina, a efetividade dessas políticas depende de:

  • educação de gênero nas escolas;
  • campanhas contínuas de conscientização;
  • capacitação de profissionais das redes de saúde, segurança e justiça;
  • fortalecimento das delegacias especializadas e casas de acolhimento;
  • responsabilização rápida e efetiva dos agressores;
  • envolvimento das comunidades e da sociedade civil.

Nenhuma mulher está segura enquanto o machismo estrutural continuar sustentando comportamentos abusivos que, quando não interrompidos, escalam para agressões graves e, muitas vezes, fatais.

Então, o que você — homem, cidadão, sociedade — tem com isso?

Tudo.

Porque a violência contra as mulheres não é um problema privado, mas um fenômeno que afeta famílias, saúde pública, economia, educação e a própria democracia. É responsabilidade de todos — e especialmente de quem historicamente ocupou posições de poder — intervir, denunciar, educar, proteger, ouvir e transformar.

A pergunta que as ruas farão neste 7 de dezembro não é apenas um slogan. É um espelho da sociedade brasileira. E a resposta precisa ir além das palavras. Precisa aparecer na atitude.

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