
A única coisa organizada no Brasil é a esculhambação
A frase não é minha. É de Stanislaw Ponte Preta, um cronista que compreendia o Brasil com uma precisão que ainda hoje constrange muitos cientistas políticos. Décadas atrás ele resumiu o funcionamento do país em uma sentença que continua atual: a única coisa organizada no Brasil é a esculhambação.
À primeira vista parece apenas humor. Mas basta observar com um pouco de atenção a mecânica do poder brasileiro para perceber que Stanislaw estava fazendo algo muito mais sério do que uma piada.
Ele estava descrevendo um método.
O Brasil pode parecer um país de improviso permanente, onde instituições tropeçam, decisões se arrastam e promessas políticas evaporam. Mas, curiosamente, existem engrenagens que continuam funcionando com impressionante eficiência.
Especialmente quando o assunto é circulação de influência.
É nesse terreno que começa a aparecer, cada vez com mais frequência, um nome que há pouco tempo era praticamente desconhecido do grande público: Vorcaro.
A ascensão silenciosa de um personagem de bastidores
Histórias políticas raramente começam no palco. Elas começam nos corredores.
Nos últimos anos, o nome de Vorcaro passou a surgir com frequência crescente em conversas de bastidor em Brasília. Até pouco tempo atrás, era praticamente um estranho fora de círculos muito específicos. De repente, passou a transitar com desenvoltura entre empresários influentes, operadores políticos e figuras relevantes das estruturas de poder.
Em Brasília, esse tipo de movimento raramente acontece por acaso.
A capital da República funciona como um clube antigo. As portas são pesadas e dificilmente se abrem para desconhecidos. Relações políticas são construídas ao longo de décadas, muitas vezes atravessando governos e disputas partidárias.
Ainda assim, Vorcaro passou a circular com surpreendente naturalidade por ambientes onde normalmente se exige tempo, confiança e capital político acumulado.
Entre essas aproximações aparecem interlocuções com figuras centrais da política nacional, como o senador Ciro Nogueira, um dos articuladores mais experientes do Congresso e personagem-chave nas engrenagens do chamado centrão.
Para quem observa de fora, a pergunta surge inevitavelmente.
Como alguém que até ontem era praticamente desconhecido consegue, em tão pouco tempo, circular com tanta desenvoltura entre centros de poder tão distintos?
Brasília conhece bem a resposta para esse tipo de fenômeno.
Relacionamentos.
Enquanto o país brigava nas redes, alguns preferiam conversar nos gabinetes
Nos últimos anos, o Brasil foi empurrado para uma polarização praticamente religiosa. Lula de um lado, Bolsonaro do outro. Uma guerra permanente nas redes sociais, nos debates políticos e até nas mesas de jantar. A política virou uma disputa de torcidas organizadas.
Mas enquanto o país discutia o político milagreiro da vez, havia quem preferisse dedicar-se a uma estratégia muito mais antiga e muito mais pragmática.
Em vez de escolher lados, certos operadores da política brasileira preferem escolher acessos. Aproximam-se de gabinetes, cultivam relações com parlamentares, transitam entre empresários, articuladores e figuras influentes das engrenagens institucionais. Nesse ambiente, o que realmente importa não é a bandeira levantada em público, mas a capacidade de abrir portas onde as decisões são tomadas.
É uma lógica antiga de Brasília. Ideologia mobiliza militantes.
Relacionamento movimenta poder.
Enquanto o país se divide em discursos, esses personagens preferem circular entre eles.
O labirinto onde alguns aprendem a caminhar no escuro
A política brasileira se parece menos com um campo aberto e mais com um labirinto institucional. Existem corredores invisíveis que conectam gabinetes, interesses econômicos, decisões administrativas e relações pessoais.
A maioria das pessoas sequer percebe que esses corredores existem. Mas alguns parecem conhecer o mapa.
Caminham com naturalidade entre mundos que, em teoria, deveriam manter distâncias institucionais. Conversam com personagens de diferentes esferas de poder e constroem relações que atravessam governos, ideologias e disputas partidárias.
Esse tipo de personagem sempre existiu na política brasileira.
Mudam apenas os nomes.
O Brasil que dá certo… para quem entende o sistema
Talvez Stanislaw Ponte Preta estivesse mesmo certo.
O Brasil convive há décadas com uma espécie de desordem organizada. A aparência é de improviso permanente, mas certas engrenagens continuam funcionando com precisão silenciosa.
Enquanto o cidadão comum tenta compreender o espetáculo da polarização política, há quem prefira estudar a engenharia real do poder.
Esses personagens não brigam contra o sistema.
Eles o compreendem.
E, sobretudo, aprendem a utilizá-lo.
Porque no Brasil existe uma verdade incômoda que raramente aparece nos discursos políticos.
O país não é um lugar onde tudo dá errado.
Para alguns, ele funciona extraordinariamente bem.