Sou do Rio de Janeiro. Embora hoje more em Porto Seguro, na Bahia, continuo acompanhando a política fluminense com aquela relação que todo carioca conhece: você pode sair do Rio, mas o Rio continua aparecendo no seu noticiário. Às vezes na política. Às vezes na polícia. Frequentemente nas duas.
O Rio sempre teve vocação para a vanguarda. Inventou o samba, a bossa nova e algumas modalidades administrativas que o restante do país preferiu não copiar. Na política, desenvolvemos um ritual particular: elegemos o governador, ele toma posse, monta o secretariado, governa um pouco e, algum tempo depois, começa a frequentar o Judiciário. Em 2019, cinco ex-governadores fluminenses haviam sido presos em apenas três anos: Moreira Franco, Sérgio Cabral, Pezão, Anthony Garotinho e Rosinha Garotinho. Cinco já não parecem coincidência. É programa de fidelidade.
Depois veio Wilson Witzel. Foi afastado, sofreu impeachment e virou réu em processo envolvendo suspeitas de corrupção. Assumiu Cláudio Castro. Finalmente tranquilidade? Também não. Castro terminou sua passagem pelo governo declarado inelegível e envolvido em investigações. Em uma delas, apareceram referências a mansão, aluguel, adega e até caviar. Caviar. Porque até na crise institucional o Rio preserva certa sofisticação.
A peculiaridade ficou tão evidente que chegou ao Supremo. Em sessão deste ano, Gilmar Mendes chamou a situação fluminense de “caso de escola” de degradação institucional. Flávio Dino enumerou governadores envolvidos com a Justiça e, em determinado momento, ouviu-se um resignado: “Deus tenha piedade do Rio de Janeiro.” Era julgamento no STF. Mas parecia mesa de bar na Tijuca.
Só que agora o Rio resolveu inovar. Antigamente elegíamos primeiro e investigávamos depois. Muito burocrático. Douglas Ruas chegou à eleição de 2026 já sendo alvo de investigações e recebeu quase metade dos votos válidos. Nada de esperar quatro anos. O inquérito agora pode chegar antes da faixa. É o governador pré-investigado. Entrega imediata.
Mas por que limitar a inovação ao Palácio Guanabara? Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio, chegou ao segundo turno presidencial e também é formalmente investigado no STF no caso Dark Horse. Investigação não significa culpa. Isso precisa estar claro. Mas presunção de inocência também não significa presunção de amnésia do eleitor.
E aí confesso meu receio. Um presidente genuinamente formado na política fluminense não aparece há muito tempo. Nilo Peçanha, de Campos, chegou à Presidência em 1909. Mais de um século. Talvez exista uma razão. Vai que colocamos novamente um produto da política fluminense no Planalto e, depois de alguns meses, alguém avisa: “Presidente, o senhor foi citado num inquérito.” E ele responde, espantado: “Só agora?”
Aí eu começaria a me preocupar. Porque, para um político formado no Rio de Janeiro, talvez o verdadeiro sinal de que alguma coisa saiu do normal seja terminar o mandato sem precisar decorar o nome dos ministros do Supremo.
É sátira, evidentemente. Mas talvez o grande ineditismo de 2026 seja justamente este: antes, o Rio elegia o político e depois descobria o inquérito. Agora o inquérito pode vir incluído no pacote.
É progresso.
Ou, pelo menos, economia de tempo.